As festas da vitória e o medo do “Reviralho”

Lyle van Hook, Richard L. Trum, John W. Eden e Julian O. Pierce em Lisboa

.

Festejos da Vitória frente à Embaixada Inglesa em Lisboa
(Revista "Mundo Gráfico" / Hemeroteca Digital)

“Viseu acaba de assistir a uma manifestação demo-comunista, em que se verificaram aspectos de tal forma graves que a cidade ficou e anda justamente alarmada”, salienta nas primeiras linhas um relatório do comando da Legião daquela cidade nortenha e que não deixa dúvidas sobre as preocupações que os festejos da vitória aliada estão a causar.

Em maio de 1945 a vitória das democracias e da Rússia comunista fazem os homens da “situação” temer o pior, tanto em Viseu como noutras cidades portuguesas. Receia-se um golpe de estado, apoiado por britânicos ou americanos, e a forma como as multidões abraçaram os festejos não descansam ninguém.

Mal a notícia da rendição se tornou pública, na tarde do dia 7 de Maio, as ruas encheram-se de gentes nas cidades, vilas e aldeias de todo o país.

Há foguetes e “morteiradas”. Bandas e fanfarras saíram à rua por conta própria ou solicitadas por comissões formadas para liderar os festejos. Muitas destas organizações ficam depressa sob forte suspeita das autoridades.

Também não ajuda, nestas primeiras horas, a incapacidade de regular e controlar as manifestações que crescem. Em alguns concelhos autoriza-se tudo, enquanto noutros nada se pode fazer.

Portalegre, por exemplo, não viu o a sua banda sair à rua porque o presidente da câmara tinha “fundado receio de que o facto fosse aproveitado para a exteriorização de ideias subversivas ou contrárias à atual situação política”.

fotografia do navio Alpha
fotografia do navio Alpha

.

Outros momentos dos festejos em Lisboa.
(Revista "Mundo Gráfico" / Hemeroteca de Lisboa)

De um modo geral, no dia 7, as festas foram espontâneas, com um carácter mais popular, com muitos “vivas” e, “atrás dos vivas, começaram de notar-se as bebedeiras que se prolongaram pela noite fora.” Para o dia seguinte marcou-se nova festa e manifestação, especialmente, nas localidades de maior dimensão e, neste caso, já se notou uma certa organização tanto por parte das referidas comissões, como por parte das autoridades que entretanto começaram as coordenar a sua atuação.

 

O medo da vitória aliada

O medo das consequências de uma derrota das forças fascistas da Europa são notórios em vários relatórios que foram chegando ao Ministério do Interior, especialmente, durante os anos de 1944 e 1945.

“Depois dos últimos acontecimentos da guerra (a morte afrontosa de Mussolini e a tomada de Berlim pelas tropas Russas) notava-se em certos sectores, uma excessiva alegria, onde afloravam ódios mal contidos, rancores pessoais e esperanças de uma subversão política em Portugal”, explicava o já mencionado relatório de Viseu.

Noutros locais os homens do regime também estão apreensivos. 

“Os conhecidos agitadores do Entroncamento (…) andam de orelhas levantadas e bastante animados. Juntam-se em grupos discutindo os acontecimentos. (…) Os homens da Situação andam amedrontados e rendem finezas aos adversários. Diz-se que finda a guerra há modificação do Governo. Que os aliados impõem aos outros povos a forma de Governo (democracia)”, resume um relatório da PSP de Setembro de 1944.

No mesmo documento pode ainda ler-se que muitos responsáveis locais “estão aterrorizados, o que demonstra bem claramente, porque contando talvez com qualquer revês, pactuam com pessoas reconhecidamente adversárias da situação".

O aproximar do fim da guerra é visto como uma potencial ameaça ao Estado Novo.

“Silvino Diogo (…) disse a alguém que possuía em sua casa uma “lista negra”, que lhe fora fornecida pelos americanos, na qual constam os nomes de pessoas da Situação e Legionários que haviam de ser abatidos”, revela um dos relatórios dos Serviços de Vigilância da Legião Portuguesa de Lisboa, datado do dia 7 de Maio.

Noutra informação da Legião, com data de 5, é destacado o desafio de um certo Medeiros, que em pleno Salão Brasil, na Rua Augusta, em Lisboa, se permitiu “fazer várias afirmações vexatórias (…) comentando o facto da Bandeira Nacional estar a meia haste em sinal de luto pela morte de Hitler. Assim, em voz alta, dizendo não ter receio daquilo que lhe fizessem, insultou o senhor Presidente do Conselho, tratando-o de «filho da puta», bem como todos os componentes do exército e Legião”.

“Em Coimbra, na noite de 3 do corrente, foram deitados mais de 500 morteiros, com o fim de festejar a queda de Berlim. Supõem-se que tenham sido anti-situacionistas, os autores desta manifestação”, salienta um relatório da Legião enquanto outro dá nota da colocação da bandeira “vermelha com a foice e o martelo, no poste da 3ª secção da Junta de Autónoma de Estradas” de Queluz, na noite de 6 para 7. Três dias depois acontecia o mesmo na Ponte de Rio Tinto, no Porto.

 

O "reviralho" sai à rua

Enquanto se realiza a assinatura da rendição dos exércitos alemães o país está suspenso num clima de tensão.

Se no dia 7 a maioria das manifestações teve um carácter popular e espontâneo, as iniciativas marcadas para o dia 8 assumem outro nível de organização.

Não se vão registar problemas, mas à frente das multidões que se juntam para ouvir discursos e vitoriar os Aliados surgem personalidades que o regime identifica como elementos do “reviralho”, “comunistas”, “democratas” ou de “ideias avançadas”.

Entre a população também há medo… Em algumas zonas onde estavam marcadas concentrações para o fim do dia o comércio fechar as portas com medo de agitadores e pilhagens.

Os olhos e os ouvidos das gentes da “situação” aguçam-se e de vários pontos do país chegam notícias. Nomeiam-se os cabecilhas, sublinham-se passagens dos discursos e apontam-se os que parecem mais perigosos.

“Alfredo Mendes da Silva, ex-aluno da faculdade de direito, foi quem chefiou a manifestação dos universitários, às Embaixadas Inglesa e Americana. Era este cavalheiro quem gritava «DEMOCRACIA» e «LIBERDADE», e pediu em frente da Embaixada Americana que fosse ajudada a academia para se obter em Portugal Liberdade e Democracia. Este nojento individuo, sempre manifestou o seu ódio ao Estado Novo, e principalmente a Salazar. (…) Hoje, diz alto e bom som, que é russófilo”, explica uma nota dos Serviços de Informações da Legião.

fotografia do navio Alpha
fotografia do navio Alpha

.

A festa em vários pontos da baixa da cidade de Lisboa.
(Revistas "Vida Mundial Ilustrada" e "Mundo Gráfico" / Hemeroteca de Lisboa)

Numa outra pode ler-se que “o conhecido maestro comunista LOPES GRAÇA, e outros elementos desconhecidos foram vistos orientando várias manifestações de carácter subversivo, entre elas uma que pretendeu assaltar o Café Martinho”. Na Régua “salientaram-se, dando vivas à União Soviética e «morras» à Gestapo Portuguesa, o cauteleiro SOTERO, que apesar de analfabeto, sempre se tem mostrado hostil à situação; CLAUDINO CLEMENTE, empregado de armazém da Casa do Douro; MANUEL PAIXÃO, taberneiro; ANGELO MONTEIRO, mestre-de-obras”.

Para além de se apontarem nomes também se enumeram os desafios ao regime, mesmo quando não é possível apontar culpados. No Crato não houve desordens, mas ouviram-se frequentemente, “vivas à Rússia e à Liberdade, percebendo-se o espírito tendencioso da parte das pessoas que os soltavam (…). É certo que concorreu para tanto, a generosidades de dois proprietários de estabelecimentos de bebidas que, na boa intenção de comemorarem o fausto acontecimento, ofereceram vinho ao povo”.

Em Campo Maior foi possível “ouvir vivas às nações vitoriosas, aos Aliados, a Carmona e Salazar, Estados Unidos, Inglaterra e Brasil e, ainda um único viva à Rússia em voz débil que não foi possível identificar”.

Houve quem pagasse com a prisão o excesso de entusiasmo. Em Ponte de Sôr, o secretário da Câmara Municipal deteve um jovem de 19 anos, carpinteiro, por ter dado um viva à Rússia. Conduzido ao posto da GNR “esteve dois dias detido, e depois de repreendido, foi entregue ao pai e à mãe, sem qualquer procedimento, em virtude de se tratar de um menor”.

As manifestações do dia 8 foram ricas em discursos e outras iniciativas que se estenderam pelos principais espaços públicos do país. Pelos relatos percebe-se que na maior parte dos casos existe uma estrutura organizativa que nem sempre afronta de forma aberta a situação, mas deixa recados nas entrelinhas.

Marcam-se novas concentrações para o dia 9 de maio. Anunciam-se, nomeadamente, manifestações de agradecimento frente às embaixadas Americana e Inglesa em Lisboa. As estruturas da oposição passam este apelo para fora da capital, mas entretanto Salazar coloca um travão na animação e proíbe novos festejos.

Mesmo assim partem de Almada um enorme grupo de pessoas com o objectivo de atravessar o rio e chegar a Lisboa. A GNR local mobiliza todos os efetivos e dirige-se para Cacilhas de modo a evitar que entrem nos barcos para cruzar o Tejo. Não se registam incidentes e as pessoas acabam por desmobilizar…

A força da rua continua, no entanto, a sentir-se e a União Nacional aproveita-a, marcando para Lisboa, a 19 de Maio - um Sábado - uma grande manifestação de agradecimento a Salazar por este ter mantido Portugal fora da Guerra…

De todo o país vão chegar milhares de pessoas para o que foi considerado "uma grande demonstração da unidade nacional".

Carlos Guerreiro




 

Fontes/ Sources:

Torre do Tombo  §  Diário de Notícias  §   Diário de Lisboa  §   o Século  §  O Século Ilustrado  §   Vida Mundial Ilustrada  §  Mundo Gráfico