Internados portugueses na Austrália

fotografia do navio Alpha

SS Islander, um dos navios envolvidos na evacuação de civis portugueses de Timor-Leste
(Arquivos Nacionais Australianos)

Com a política de neutralidade decidida pelo governo de António Oliveira Salazar, Portugal ficou oficialmente de fora do segundo grande conflicto mundial. Contudo, isso não impediu que houvesse portugueses em cenários de combate ou civis internados em diversos países ou territórios estrangeiros.

Em específico, a anexação de Timor Portuguesa por parte das forças militares japonesas, obrigou a retirada de um número relativamente elevado de civis nacionais para território australiano, que seriam posteriormente internados ou alojados em diversas regiões e campos, em especial, por New South Wales. Em diversas viagens, feitas principalmente durante a noite de modo a evitar patrulhas japonesas, em navios completamente lotados, as condições sanitárias durante o transporte não eram as melhores, algo que provocou desagrado em muitas das famílias portuguesas.

Já em portos australianos, todo o processo foi também algo caótico, em especial nos postos de processamento de dados, para onde muitas centenas de refugiados de múltiplas nacionalidades eram dirigidos. Muitas famílias separadas, doentes, e até mesmo crianças solitárias, todos se cruzaram e tudo se passou, enquanto aguardavam registo e permissão de entrada. Com o número de entradas a ser de tal modo elevado ao que era esperado, as entidades australianas cedo se viram obrigadas a procurar alternativas ao alojamento que ja se encontrava preparado, como tal, foram criados campos de internamento opcional e militar, acampamentos e outros tipos de comunidades contributivas, ou seja, em troca de "uma vida segura", os evacuados ou internados teriam também de uma forma ou outra de contribuir para as sociedades locais, onde estivessem integrados. Muitos trabalhariam em produções agrícolas, limpezas ou até mesmo na construção e melhoramento de infraestruturas, em troca recebendo salários.

Contudo, o que parecia ser o início de uma nova e normal vida, cedo se realizou que não seria fácil, com diversas promessas estatais australianas a serem atrasadas ou mesmo não cumpridas, fazendeiros locais a recusarem oferta de trabalho a internados, dificuldades de acesso dos jovens e crianças ao ensino e as más condições de vida em alguns dos campos. As manifestações e reclamações portuguesas fizeram-se às centenas, de tal modo, que seria atribuída ao exército, de forma auxiliar, a gestão de bens e equipamento a providenciar ao internados, como por exemplo, tendas, roupas, sapatos, bens alimentícios, mesas, cadeiras e muito mais, até Julho de 1943, altura em que Portugal acordaria em prestar apoio financeiro.

A mãe de Tília Bugalho Godinho e tios foram apenas alguns das várias centenas de internados e evacuados portugueses em território australiano em periodo de guerra........

fotografia do navio Alpha

Maria Acácia da Costa dos Santos Cidrais e Armandina Augusta da Costa dos Santos Cidrais em Glen Innes, New South Wales, 1945
(Fotografia de Tília Bugalho Godinho)

fotografia do navio Alpha

Celestino Cláudio da Costa dos Santos Cidrais, José António da Costa dos Santos Cidrais e Jaime da Costa dos Santos Cidrais em Glen Innes, New South Wales, 1945.
(Fotografia de Tília Bugalho Godinho)

fotografia do navio Alpha

Lista parcial de material fornecido pelo exército australiano aos evacuados portugueses no campo de Liverpool
(Arquivos Nacionais Australianos)

Durante vários anos, mais de cinco centenas de civis portugueses residiram, nas comunidades Australianas, a salvo dos combates de um dos conflictos mais mortais de sempre, até chegada a ordem de regresso a território nacional. Na sua maioria, o regresso, para muitos foi visto com saudade e felicidade, para outros, com alguma angústia, pois seria o que não desejavam.

Alguns internados e respectivas famílias, perfeitamente integrados nas sociedades deste país que os acolheu em hora de necessidade, conseguiriam vistos de residência permanente.

São testemunhos e registos como estes que nos levam a investigar o historial português por este mundo fora, restando-nos apenas deixar o nosso obrigado a Tília Godinho por nos fazer chegar estas preciosas imagens familiares.

António Fragoeiro




 

Fontes/ Sources:

  • Arquivos: National Archives UK, Kew (GB); Arquivo Histórico da Marinha (PT); Arquivo Histórico do MNE (PT); 
  • Sites: uboat.net; 
  • Livros: Shipping Company Losses of the second World War, Ian M. Malcolm; Lista dos Navios da Marinha Portuguesa, datas 1939 a 1945;