O sonho de emigrar para… Casablanca

Lyle van Hook, Richard L. Trum, John W. Eden e Julian O. Pierce em Lisboa

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Maria da Encarnação, a única mulher a bordo, estava quase histérica quando foi recolhida pelo navio de guerra americano.
(Naval War Diaries – NARA)

No dia 7 de Junho de 1943 o mar estava picado e o vento forte. Tudo indicava que a noite ia engrossar a tempestade. No pequeno “Carioca”, um barco de pesca aberto – com vela latina - de pouco mais de oito metros, o desespero crescia. Das nove pessoas a bordo apenas uma tinha alguma experiência de marinharia e nenhum fazia ideia de onde estavam.

Fizeram sinais a um avião com uma toalha branca, mas este pareceu não os ver. Há dois dias que a água saltava a amurada baixa e se acumulava no fundo do casco. Da comida sobravam um pouco de queijo e uns limões. A água doce estava no fim.

Eram cerca das nove da noite quando foram avistados pelo contratorpdeiro americano“USS MacCormick”. O comandante Owens apercebeu-se do pequeno barco entre a ondulação e, conhecendo as dificuldades que se anunciavam, não teve dúvidas em recolhê-los.

Oito homens e uma mulher - quase histérica - subiram a bordo. Eram todos portugueses e tentavam chegar a Casablanca, em Marrocos, onde amigos lhes tinham garantido que seria possível encontrar trabalho.

“Todos os membros do grupo são residentes na área de Lisboa. Cada um deles assegurou que deixara Portugal porque não era elegível para trabalhar devido à sua relutância em juntar-se à Legião Portuguesa, uma alegada organização fascista”, escreveu o comandante do “MacCormick” no relatório confidencial onde explica os acontecimentos.

O pequeno barco, que tinha andado à mercê dos elementos, foi comprado com o dinheiro que todos tinham reunido e preparado para uma viagem de 72 horas.

“Partiram de Lisboa no dia 4 de Junho de 1943. Planeavam descer a costa até ao Cabo de Sines, depois afastavam-se, passavam o Cabo de S. Vicente e voltariam a rumar para terra esperando chegar à costa de África, a Casablanca. No entanto, ao fim da tarde do dia 5, encontraram vento e mar fortes e foram empurrados para sudoeste”, explica o comandante Owen.

Este grupo nunca chegaria a Casablanca, mas a aquela cidade do Norte-África era um importante pólo de atracção para os portugueses que procuravam uma vida melhor. Do Algarve partiam todos os anos homens e mulheres que durante alguns meses se envolviam em actividades fabris ou na pesca naquele território que então era francês.

Todos os anos eram roubadas embarcações na costa portuguesa para homens e mulheres fazerem a travessia até Casablanca onde esperavam ter trabalho e melhores condições de vida, mesmo durante o período da guerra.

 

Retratos portugueses

Dos interrogatórios realizados pelos americanos ficou um retrato que permite conhecer não só as características físicas mas também o empenhamento político, as crenças e as esperanças de cada uma das pessoas recolhidas do “Carioca”.

João Rodrigues Sério, de 29 anos, deixara mulher em Lisboa. Pretendia chamá-la quando se estabelecesse em Casablanca. Segundo o comandante do “McCormick” declarou-se um “anti-fascista porque, aparentemente, associa os poderes fascistas às suas dificuldades económicas” .

fotografia do navio Alpha
fotografia do navio Alpha

Os portugueses a descer do "USS Tarazed" e na base naval de Norfolk, nos EUA.

(Naval War Diaries - NARA)

Simplício da Encarnação e a mulher Maria eram o único casal a bordo. Não tinham filhos. Ele, com 40 anos, "não tem convicções políticas", é “iletrado, e por isso uma fraca fonte de informações”. De Maria, dez anos mais jovem, ficamos a saber que tinha passado por uma fábrica têxtil e pouco mais.

Francisco Águas, de 33 anos, já tinha tentado emigrar. Escrevera para a embaixada britânica pedindo autorização para viajar, mas na resposta ficou a saber que o governo português não autorizava a sua saída. Por isso tinha optado por esta solução.

José Vicente Leal, de 57 anos, deixara para trás a mulher e nove filhos. Também esperava juntar depois a família em Casablanca. Pouco interessado em “em filosofias políticas”, ele explicara ao comandante Owen que “governo é comida para a barriga e lar para a família”.

A mulher e os três filhos de Hermínio Albano, de 43 anos, também tinham ficado em Portugal e Após o salvamento ficou entusiasmado com a possibilidade de trocar uma vida em Marrocos por uma nos Estados Unidos.

António Gonçalves Rosa, de 28 anos, era divorciado, mas tinha deixado namorada em Lisboa. Não tinha ligações políticas mas já “havia sido ameaçado de prisão por utilizar um pin da RAF”.

Os dois últimos passageiros do “Carioca” conheciam os Estados Unidos e já lá tinham trabalhado.

Caetano de Almeida tinha-o feito em 1941 e 1942. Regressara a Portugal para ajudar a filha doente e tinha sido impedido de voltar a sair pelas autoridades portuguesas. Era viúvo, mas encontrara uma nova mulher que, na altura da viagem, estava grávida. Com 43 anos assegurava não só que ia chamar a família a Casablanca, como também casar.

A personalidade mais “faladora” do grupo era José Rodrigues. Com 47 anos, já tinha conduzido táxis, trabalhado em fábricas e andara embarcado. Participara na I Guerra Mundial como sargento do exército português, e emigrara para Boston em 1919, para trabalhar numa fábrica de sapatos e numa refinaria de açúcar. Assumira mesmo a nacionalidade americana.

Rodrigues era “um forte antifascista, membro do que chama o Partido Republicano e um informador dos serviços secretos britânicos”, garantia o relatório enviado pelo “McCormick”. Durante o interrogatório assumiu que já fora detido por se envolver em acções de agitação política.

No retrato que fez de Portugal reafirmou - como os restantes - as dificuldades em conseguir um trabalho remunerado, para quem não integrava a Legião. Por outro lado assegurava que existia grande empenho do governo de Salazar em recrutar voluntários para o “Regimento Azul” (Divisão Azul) - uma unidade espanhola que combateu ao lado dos alemães na frente russa -, ou para emigrarem para a Alemanha.

“Tanto num caso como noutro o governo paga a viagem, e os membros da Azul Espanhola que voltem feridos recebem uma pensão do Governo”, terá assegurado.

A sua estada em Portugal estava relacionada com uma visita que tinha feito à irmão em 1922. Depois foi também proibido de sair pelas autoridades portuguesas.

Owen concluí que os náufragos “esperam ser bem-vindos à América tanto para trabalhar, como para serem recrutados para o exército”. Qualquer das soluções parecia agradar ao pequeno grupo.

 

O fim do sonho americano

Dez dias depois de terem sido recolhidos McCormick foram transferidos para o “USS Tarazed” que os deixou – a 24 de Junho - na Base Naval de Norfolk, na Virginia.

É durante o desembarque que são tiradas as fotografados que ilustram este artigo. Entregues à Cruz Vermelha Internacional, apresentam-se dois dias depois à comissão de imigração, que rejeitou a entrada de quase todos nos EUA por não possuírem a documentação necessária.

Talvez porque tinha nacionalidade americana, ou porque fornecia informações aos aliados, José Rodrigues não regressou a Portugal. Os restantes são notícia – a 22 de Setembro - no “Diário de Lisboa”que deu conta da chegada de “oito dos nove indivíduos portugueses, que saíram há tempos, num pequeno bote, com o desejo de seguirem para Casablanca”.

“À chegada a Lisboa, foram entregues à Polícia Internacional, para ser resolvida a sua situação de tentativa de emigração clandestina. Depois serão ouvidos na Policia Marítima, acerca do caso do bote em que eles seguiam e que pertencia ao sr. João Alves”.

Carlos Guerreiro




Fontes:

NARA  §   Diário de Lisboa  §  Arquivo de Marinha