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O Terreiro do Paço em Lisboa. Fotografia tirada por Roger Kahan, um refugiado judeu e fotógrafo profissional, que fotografou a capital portuguesa em finais de 1940.
(Fotografia: Roger Kahan - Revista Panorama (1946))
“Uma outra categoria de estrangeiros chama de forma mais insistente a atenção dos portugueses. São os muitos membros, empregados e funcionários da Legação da Alemanha e dos seus serviços de consulado, de imprensa, de informação e demais departamentos. Esta categoria indesejada de estrangeiros impõe-se de uma forma que causa espanto entre os visitantes de Lisboa. Não é raro, quando passeamos pela rua, ou nos sentamos num café, ouvir – em voz alta – o cumprimento ‘Heil Hitler’. O seu aspecto saudável, de faces bem alimentadas, carteiras recheadas e a sua roupa perfeitamente vincada deixa a suspeita justificada de que estes beneficiários do nacional-socialismo têm passado ali uma vida muito mais rica que os seus concidadãos na Alemanha”.
Esta é uma das descrições da capital portuguesa feita Bernd Ruland, um refugiado que fez o caminho do sul de França até Lisboa para fugir ao regime nazi. O texto foi publicado em dezembro de 1943 no jornal “Die Zeitung”, editado e distribuído entre refugiados alemães a viver em Inglaterra.
O campo de concentração em Espanha
Quando os alemães invadiram França, Ruland escapou para o sul do país, onde foi criada a chamada "zona livre" com capital em Vichy. Acreditou que o governo liderado pelo general Petain não se iria dobrar às exigências de Hitler, mas o tempo acabou por mostrar que não passava de um governo fantoche que correspondia às exigências dos Nazis.
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O jornal "Die Zeitung" e o artigo onde Bernd Ruland conta o que viu em Lisboa.
Em 1942 o governo de Vichy retirou as licenças de residência e as autorizações de circulação aos estrangeiros. Ruland e a mulher, perceberam que acabariam por ser entregues ás autoridades alemã. Apátridas, pois o Governo alemão tinha retirado a nacionalidade a judeus e inimigos políticos no exílio, conseguiram passar a fronteira para Espanha onde foram detidos e internados no campo de concentração de Miranda del Ebro.
Após a invasão do Norte de África pelos aliados em finais de 1942, os espanhóis aperceberam-se que a possibilidade dos Aliados ganharem a guerra crescia. Francisco Franco mandou fechar o complexo prisional onde juntara refugiados e militares Aliados apanhados em território espanhol.
Ruland chegou a Lisboa no Lusitânia Expresso, o comboio que ligava as duas capitais Ibéricas “sem paragens em apenas 12 horas, quando antes se levavam 20”, explicou nos artigos que assinou entre outubro e Dezembro de 1943. Preparou-se depois para uma espera que o levaria até ao Reino Unido.
No conjunto de artigos a que chamou “Flucht nach England” (Fuga para Inglaterra), Ruland vai descrevendo os ambientes e os locais por onde passou.
Ingleses e americanos cumprimentados na rua
Um dos artigos - “Leben in Portugal” (Vida em Portugal) - é dedicado ao nosso país. Nele escreveu sobre os milhares de refugiados que se passeavam nas ruas da capital e sobre o facto das autoridades lhes fixaram residência em cidades dos arredores para evitar o caos em Lisboa.
Falava também do desejo de partir.
Recordava um Tejo cheio de navios que saiam para diversos destinos – especialmente a América - mas navegavam vazios pois não se conseguiam vistos para outros países ou dinheiro para comprar bilhetes para a liberdade.
A Cozinha Económica, o refeitório onde refugiados judeus podiam comer as suas refeições e malas de refugiados á espera de embarcar num dos cais de Lisboa.
(Fotografias: Roger Kahan/ Mundo Gráfico 08/1941)
A Ruland ficou ainda a impressão de que o governo português ia ceder na neutralidade, tendo em conta as preparações militares e os dispositivos de defesa que eram visíveis em vários locais.
Por outro lado referiu como generalizada a simpatia pela “centenária” aliança britânica, enquanto se sentia alguma antipatia pela causa alemã e, especialmente, pela japonesa devido à invasão de Timor e às tensões existentes em Macau.
Para reforçar esta ideia relatou a atitude dos portugueses face ao anúncio da rendição italiana, assinada a 3 de Setembro de 1943 e tornada pública cinco dias depois: “magotes de pessoas juntaram-se junto às bancas dos jornais. Falava-se do assunto de forma animada e, se viam alguém com aspeto de ser inglês ou americano, apertavam-lhe a mão, congratulando-o. Esta atmosfera representou uma mudança radical para pessoas que, como eu, vieram de países do eixo ou simpatizantes do eixo.”
“E há mais um aspeto que me tocou de forma muito forte. Nos portugueses o ódio racial, quer ao judeu, quer ao negro, é completamente desconhecido”, salientava no artigo.
“No país que há 400 anos expulsou todos os judeus do seu território existem hoje pequenas associações, protegidas por lei, e os judeus são aceites em todas as profissões não sendo visível qualquer propaganda anti-semita”, terminava, num tom admirado, o artigo de Bernd Ruland, antes de referir a chegada a Inglaterra, através de um voo civil da BOAC, que partia periodicamente da Portela em direção a Witchurch, em Bristol.
Carlos Guerreiro
Fontes:
"Die Zeitung" § Mundo Gráfico § Panorama

