Corte Real
Capitão: José Narciso Marques Júnior
Tipo: Vapor de carga
Tonelagem: 2,043 TB
Proprietário: Companhia de Navegação Carregadores Açoreanos
Porto: Ponta Delgada
Construção: Países Baixos
Tripulantes e passageiros do "Corte Real"
(Imagem: Século Ilustrado/ Hemeroteca de Lisboa)
Jorge Soares de Andrade, o imediato do “Corte Real”, ficou estarrecido com a ordem do comandante alemão: o seu navio iria ser afundado. Tentou argumentar, mas o comandante do submarino alemão disse-lhe que no manifesto de carga estava mercadoria para o Canadá, um país inimigo dos alemães.
O transporte era considerado contrabando e o "Corte Real" seria afundado logo que passageiros e tripulantes o abandonassem.
Soares de Andrade ainda convenceu o capitão-tenente Hans Werner Kraus a ouvir o comandante do Corte Real. Ele sabia um pouco de alemão e de certeza - salientava no inquérito elaborado pela marinha - que “poderia esclarecer qualquer dúvida que porventura pudesse haver”.
O imediato atravessou de bote, os 200 metros que separavam o submarino "U-83" do "Corte Real" para avisar o capitão José Narciso Marques Júnior das intenções do alemão. Júnior não perdeu tempo a fazer o caminho inverso para impedir que a viagem, aparentemente normal, se transformasse numa tragédia.
Estávamos a 12 de outubro de 1941, em plena II Guerra Mundial, mas nada o levaria a crer que teria de enfrentar uma situação deste tipo.
Ele sabia que dois navios portugueses, o Exportador I (01-06-1941) e o Ganda (20-06-1941), tinham afundados por submarinos, e que vários outros tinham sido interceptados tanto por alemães como por britânicos desde os finais de 1939. Alguns casos cidadãos estrangeiros tinham sido “capturados” durante intervenções nos navios, mas em nenhum caso tinha surgido uma ameaça de afundamento deste tipo.
Portugal era neutral e a carga seguia para um porto também neutral, nos EUA.
A bordo vinham cerca de 710 toneladas de carga. Os jornais da época dizem que se tratavam de conservas, cortiça, vinho do porto e relógios suíços. Também se falou em volfrâmio, mas mais tarde isso foi negado…
As duas passageiras com as filhas.
O capitão com tripulantes e passageiros
(Imagens: Mundo Gráfico e Século Ilustrdo / Hemeroteca de Lisboa)
Os passageiros eram duas mulheres com as filhas – embarcadas em Lisboa e com destino a Ponta Delgada – e dois estrangeiros, um francês e um americano – embarcados no Porto e com destino aos Estados Unidos.
A viagem tinha começado a 7 de outubro com o troço de Lisboa a Leixões. A travessia do Atlântico em direcção aos EUA, por seu lado, começou pelas 18 horas do dia 11 de Outubro de 1941, quando o Corte Real saiu da Barra do Douro com rota traçada para o Funchal e Nova Iorque. No regresso passariam pelos Açores.
A enorme bandeira e o nome de Portugal pintados no casco asseguravam uma identificação clara do navio e quando, na manhã seguinte, foram sobrevoados por um avião alemão, não houve grande preocupação a bordo. Isso mudou às 11.45 horas quando um submarino disparou um tiro de canhão por cima do navio, um aviso para que travasse a progressão. Já o navio parava as máquinas quando se ouviu um segundo disparo.
Utilizando sinais de bandeiras foi comunicado que o comandante da embarcação beligerante pretendia ver os papéis relacionados com o navio e com a carga.
A inspecção já durava hora e meia quando foi feito o aviso do comandante alemão. O "Corte Real" transportava relógios e outros aparelhos de precisão, oriundos da Suíça que tinham por destino o Canadá. Razão suficiente, argumentou Kraus, para afundá-lo.
As justificações e pedidos do comandante português de pouco serviram. Marques Júnior explicou que os aparelhos suíços tinham sido carregados na cidade italiana de Génova, um aliado dos alemães; que estava disposto a regressar a Lisboa para deixar essa parte da carga; que poderia até jogá-la borda fora, já ali, se assim entendessem. Prometia ainda, sob palavra de honra, que até ao final da guerra não voltaria a transportar produtos para países beligerantes inimigos dos alemães.
Hans Werner Kraus não se deixou demover. Tinham meia hora para abandonar o navio.
O regresso ao "Corte Real" foi feito na companhia do imediato e de um praça do U-83. Os 36 tripulantes, seis passageiros e os principais bens que carregavam foram metidos em duas baleeiras, mas uma delas não estava em condições de navegar e os náufragos tiveram de se acomodar todos apenas numa delas. Os bens – malas e documentos - ficaram para trás.
O "Corte Real" e o seu capitão José Narciso Marques Júnior
(Imagem: Século Ilustrado/ Hemeróteca Municipal)
Desceram ainda do navio um outro bote, bastante mais pequeno, mas todos continuaram apertados.
Pelas 14 horas os dois barcos chegaram ao submarino, que usou o canhão para disparar nove granadas sobre o Corte Real. Seguiu também um torpedo ou talvez dois, segundos os diferentes relatos.
Em meia hora as águas engoliram o tudo.
A pedido de Marques Júnior a baleeira e o bote foram rebocados pelo submarino durante cerca de 20 milhas em direção a terra. Durante essa viagem as duas mulheres e as crianças foram convidadas para bordo da embarcação alemã.
A cerca de sessenta milhas da costa portuguesa - mais ou menos cem quilómetros - acabou a boleia porque os alemães não podiam correr o risco de se aproximar mais da costa.
As mulheres regressaram à baleeira com duas mantas oferecidas pelo comandante alemão, que deixou também leite, pão e água, para todos. Foram ainda fornecidas instruções sobre a rota a seguir.
Uma pistola de sinais luminosos foi também deixada, para além da promessa de que as autoridades alemãs seriam avisadas e que essa informação seria passada ao governo português.
Por volta das 17.30 horas estavam sozinhos. Nas 13 horas seguintes os náufragos do "Corte Real" conseguiram remar cerca de 35 milhas e às primeiras horas da madrugada avistaram a luz do farol do Cabo da Roca.
Pouco depois encontraram o “A Deus”, um barco de pesca do porto da Fuzeta, que se ofereceu para os rebocar até Lisboa…
Perto da costa foram sobrevoados por um avião português que partia para os procurar e, já perto de Cascais, uma lancha de pilotos da barra do Tejo completou o reboque até ao antigo Arsenal da Marinha, a poente do Terreiro do Paço, onde eram esperados pelas autoridades…
Estavam salvos.
Nos dias seguintes, e apesar da censura, os jornais portugueses explodiram de indignação perante o afundamento. A hostilidade para com os alemães subiu de tom, ms isso não impediria outros afundamentos no futuro.
Carlos Guerreiro
Fontes:
National Archives UK, Kew (GB) § Arquivo Histórico da Marinha (PT) § Arquivo Histórico do MNE (PT); § uboat.net. § Lista dos Navios da Marinha Portuguesa, datas 1939 a 1945 § Torre do Tombo § Hemeroteca de Lisboa

