Ganda (Portugal)
Capitão: Manuel Paião
Tipo: Vapor de carga
Tonelagem: 4333 TB
Proprietário: Companhia Colonial de Navegação
Porto: Lisboa
Construção: Flensburgo, Alemanha (1907)
Ilustração de Rodrigues Alves recreando o afundamento do Ganda
(Imagem: O Século Ilustrado "Navios e Navegadores")
“Uma tremenda explosão atingiu o casco por estibordo entre a ponte e a casa das caldeiras. (…) O costado sofreu um rombo de grandes dimensões por onde podia passar um comboio”. O comandante do Ganda descrevia assim o ataque ao seu navio, num testemunho prestado à marinha, dias depois do trágico acontecimento. A embarcação portuguesa, que partira de Lisboa com destino às colónias africanas, foi atingido por um torpedo - a 22 de julho de 1941 - a dezenas de milhas da costa marroquina.
Quinze minutos antes desta explosão o Ganda tinha sido “sacudido com alguma violência dando a impressão que tinham batido em algum objeto submerso”. O comandante Manuel Paião mandara parar as máquinas para inspecionar o casco e as cobertas inferiores. Foi encontrada água num tanque, mas nada de significativo e não houvera tempo para mais averiguações, pois o torpedo rasgou o navio dez minutos depois do choque com o tal “objecto submerso”. Em depoimentos posteriores, os tripulantes diziam acreditar que o primeiro embate deveria ter resultado do ataque do submarino, mas que o torpedo não explodira.
Face aos estragos, foi dada ordem imediata para que se abandonasse o navio, mas das quatro baleeiras a bordo uma ficou destruída na explosão e outras duas viraram-se depois de lançadas, devido ao estado do mar. O capitão ordenou também o lançamento à água de uma lancha com motor, utilizada normalmente para facilitar as manobras e fazer o reboque nos portos africanos, onde não existiam apoios convenientes.
Das 72 pessoas que seguiam a bordo, 50 eram tripulantes, cinco tratadores de gado e quinze passageiros. Contabilizavam-se também dois clandestinos.
Pouco depois das 19.30 horas, Manuel Paião tomou lugar na única baleeira salva-vidas que sobrevivera e recolheu algumas pessoas que estavam na água. Reuniu 26 náufragos na sua embarcação, enquanto na lancha a motor seguiam os restantes.
Um fino periscópio com uma janela redonda foi visto a passar a uma dezena de metros. Mais tarde o submarino emergiu realizando diversos disparos de canhão na tentativa de afundar o navio, mas pelas quatro da manhã, numa altura em que a baleeira já se encontrava bastante afastada, ainda se via o clarão das chamas que lavraram a bordo de forma intensa.
Ironias de guerra
Como outros navios portugueses, também o Ganda ostentava as marcas da neutralidade. Em ambos os lados do casco tinha pintado a bandeira nacional e, com letras brancas de metro e meio, o nome do navio e a palavra “PORTUGAL”. No mastro principal ondulava uma bandeira e bem visível sob a ponte estava outra bandeira de lona - com 3 por 2 metros - iluminada também durante a noite. De nada serviram…
No meio da confusão, as duas embarcações com sobreviventes seguiram rotas distintas e não voltaram a avistar-se.
É possível que o comandante Manuel Paião olhasse para a situação com temor, mas também sentisse a ironia do momento. Um mês antes, tinha recolhido 24 sobreviventes do navio tanque britânico British Grenadier e agora também ele era um náufrago. Os britânicos tinham sido afundados a 22 de maio ao largo da Guiné, também por um submarino. Os 49 ingleses tinham passado pouco tempo nos salva-vidas, pois o Ganda, e um outro vapor espanhol, conseguiram recolhê-los e deixá-los em Freetown, na Serra Leoa.
Agora também o português enfrentava a imprevisibilidade do destino num pequeno bote…
Os tripulantes do Ganda que morreram e alguns tripulantes do Fafe, que recolheram sobreviventes do mercante português.
(Fotografia - Picture: Revista "Século Ilustrado")
A explosão tinha danificado o rádio do Ganda e não fora possível emitir qualquer mensagem de socorro. Vogando ao largo de Marrocos, Manuel Paião teve sorte, pois logo na manhã seguinte o seu salva-vidas foi avistado pelo vapor de pesca Fafe. As notícias do desastre chegaram logo depois a Lisboa.
O comandante sabia que quatro dos tripulantes tinham morrido na explosão, mas também desconhecia o destino da lancha que transportava a a maior parte dos sobreviventes.
A espera que desespera
Logo que se soube do desastre em Portugal, a Armada enviou um navio para a zona, e a Aviação Naval realizou várias patrulhas para localizar os sobreviventes. O mesmo fizeram aviões franceses baseados em Casablanca. Nenhum teve sorte.
A sede dos armadores, a Companhia Colonial de Navegação (CCN), na Rua Instituto Virgílio Machado, colocou a bandeira a meia haste, enquanto recebia familiares dos náufragos, representantes de outras empresas marítimas, militares e elementos do governo.
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Alguns dos sobreviventes do Ganda recolhidos pelo Fafe.
(Fotografia - Picture: Revista "Vida Mundial")
Os jornais relatavam as movimentações na sede da CCN e a falta de notícias. Sabia-se que a bordo da lancha não havia alimentos ou gasolina suficientes para chegar a terra. Não era certamente o melhor tipo de embarcação para se ser náufrago… fora apenas um recurso de última hora.
Com a passagem dos dias, o ambiente foi ficando ainda mais fúnebre.
A chegada de notícias, na tarde do dia 24, desanuviou o ambiente… os náufragos tinham chegado ao porto de Huelva, no sul de Espanha.
Foi já numa altura em que os portugueses desesperavam – três dias depois do torpedeamento - que o comandante José Perez Florêncio, do pesqueiro espanhol Gonzales Ventura, os descobriu. O arrastão encontrava-se a 80 milhas da costa marroquina, carregado de peixe, quando se apercebeu da presença da lancha.
A bordo estavam 41 sobreviventes, entre eles cinco mulheres e uma criança, que vão merecer uma nota especial da imprensa: “De uma maneira geral, as senhoras portaram-se bem, e deram moral a todos, mesmo nos momentos em que a sede, a tragédia do mar imenso sem farol, as angústias e a fome e até o frio, pois algumas vinham quasi nuas, as obrigavam a desfazer-se em lágrimas, elas foram dignas. Elevavam as mãos ao céu e apelavam para Deus”, escreveu o Diário de Lisboa, que, na edição do dia 25, fez um relato das conversas telefónicas tidas com o cônsul português, o comandante Florêncio e vários náufragos.
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Chegada dos autocarros vindos de Espanha com sobreviventes do Ganda.
(Fotografia - Picture: Revista "Vida Mundial")
Ficamos também a saber que uma das mulheres, a "dona" Rosa de Araújo Ribeiro, “teve uma grande crise, que felizmente se debelou” e que um miúdo de 8 anos chorou horas seguidas por causa da sede. Acalmaram-no dando-lhe água salgada a beber…
Trinta e sete sobreviventes chegaram de autocarro a Lisboa na manhã do dia 26. Quatro, mais cansados ou feridos ficaram para trás, regressando mais tarde. Ao nascer do sol as camionetas entraram no Cais do Sodré onde eram esperadas por familiares e “muito povo” que deram “vivas a Portugal e à sua marinha mercante”.
O ataque do U-123
É possível que o primeiro impacto sentido no Ganda, pouco antes da explosão, fosse mesmo um torpedo, pois o U-123 disparou dois projécteis, mas apenas um explodiu.
Os alemães viram a tripulação abandonar o navio e voltaram a torpedeá-lo, mas o cargueiro não se afundou. Foram obrigados a emergir para concluir o ataque, a tiros de canhão, e deixaram o navio em chamas.
Só quando se dirigiram aos salva-vidas perceberam que tinham afundado um navio neutro, e resolveram afastar-se. Mais tarde, a informação sobre o ataque foi apagada do registo oficial.
Carlos Guerreiro
Fontes:
Arquivo Histórico da Marinha (PT) § Arquivo Histórico do MNE (PT) § uboat.net § Lista dos Navios da Marinha Portuguesa, datas 1939 a 1945 § Diário de Lisboa § Diário de Notícias § O Século Ilustrado § Vida Mundial

