Queda de bombardeiro PB4Y-1 em Faro
Uma história com muitas histórias

Lyle van Hook, Richard L. Trum, John W. Eden e Julian O. Pierce em Lisboa

Lyle van Hook, Richard L. Trum, John W. Eden e Julian O. Pierce em Lisboa
(Imagem: Lyle Van Hook

Jaime Nunes, José e Manuel Mascarenhas na embarcação em que salvaram os aviadores americanos

Jaime Nunes, José e Manuel Mascarenhas na embarcação em que salvaram os aviadores americanos
(Imagem / Picture: Lyle Van Hook

“Aquilo fez um estoiro. Era um monstro. Saltaram faíscas por todo o lado. Cheirava a óleo e a fumo. Apanhámos um susto tão grande”. Jaime Nunes recordava desta forma o que viu e sentiu quando um enorme avião se desfez à sua frente, na noite de 30 de Novembro de 1943. Estava a poucas milhas de Faro, num barco de pesca, quando a guerra, que sempre lhe parecera tão longe, lhe caiu literalmente aos pés.

Desde o princípio da noite que estava no pesqueiro onde normalmente capturava corvinas, acompanhado do compadre, José Mascarenhas, e do filho deste, Manuel. 

Pelas 22 horas tinham avistado uma um estranho conjunto de luzes no ar. “Vi-os ir até Quarteira e voltar. Depois voaram sobre a cidade de Faro com as luzes ligadas. Parecia que andavam à procura de qualquer coisa”, relembrava o pescador, 50 anos após o incidente.

Os tripulantes do avião, um PB4Y-1 – a versão da marinha do bombardeiro B-24 Liberator - andavam de facto à procura de um local para aterrar o enorme quadrimotor, mas estavam perdidos depois de um dia de patrulha em busca de barcos e submarinos alemães. Pertenciam à esquadrilha VB 112, recém chegada à base de Port Lyautey – actual Kenitra - em Marrocos. 

Nestas patrulhas os aviões - normalmente isolados - percorriam centenas de milhas sobre o mar. Para regressar tinham sistemas de navegação e uma frequência de rádio que os guiava, mesmo que o resto falhasse. Os americanos não sabiam, no entanto, que Sevilha emitia uma frequência muito semelhante e foi essa que o PB4Y-1 captou quando terminou a sua missão.

A bússola indicava que seguiam a rota errada, mas a bordo pensou-se que era uma avaria. Finalmente viam terra, mas não a reconheciam.

“O voo tinha sido complicado desde o início. Levantámos pouco depois das nove da manhã e apanhámos bastante turbulência devido ao mau tempo. A visibilidade era reduzida e fomos obrigados a voar baixo durante quase todo o dia. Quando pensávamos estar a chegar à base, demos com uma linha de costa estranha. Era possível ver as luzes de uma cidade ou de uma vila, mas não conseguíamos identificá-la. Com os níveis de combustível muito baixos, tínhamos de tentar alguma coisa para nos salvarmos”, contava, em 1998, Lyle van Hook, o jovem chefe de tripulação que seguia no aparelho.

fotografia do navio Alpha

Treino de tripulações em Quonset Point, EUA. Outubro de 1943. De pé: Samuel E. Thompson e o Tenente Trum. Em baixo: William R. Stultz, Paul Brugemann, Earl E. Sowers, R. E. Allen e Lyle Van Hook. Trum, Van Hook, Stultz e Sowers estavam no avião que se despenhou frente a Faro.
(Imagem: Lyle Van Hook)

“Qualquer solução era complicada. O mais óbvio era saltar de pára-quedas, mas havia riscos. Logo depois da costa o terreno parecia-nos montanhoso e não queríamos levar o avião nessa direcção porque podíamos matar alguém. Se saltássemos com o avião a dirigir-se para o mar, algum dos homens podia acabar na água e afogar-se, devido ao frio e ao peso do equipamento. Mesmo assim colocámos os pára-quedas”, explicou Lyle.

Com os depósitos de combustível quase vazios o comandante, Richard Trum, alterou os planos: “Tinha visto o que parecia uma praia e disse-nos que ia tentar aterrar. Soltámos as cargas de profundidade e ocupámos os nossos lugares para uma aterragem de emergência”.

O que parecia uma praia era mar aberto e, quando o trem de aterragem tocou nas ondas, o avião capotou e partiu-se, arrastando para o fundo vários tripulantes. “Quando dei conta estava na água junto ao que restava da fuselagem. A parte traseira do aparelho tinha desaparecido e o nariz estava afundado. Ainda subi para uma asa com o Rex McCoy, mas quando ela se começou a afundar tivemos de voltar a nadar”.

“Ouvimos o tenente Trum gritar que estava agarrado a uma roda e pedia para a tripulação se dirigir até ele. Como o McCoy não estava em condições de nadar o comandante empurrou roda na nossa direcção. Foi nessa altura que nos avisou que via um barco a aproximar-se”.

O impacto do avião, a poucas dezenas de metros do barco, deixou Jaime Nunes e os companheiros atemorizados. “Ficámos assustados. O Manuel, que era um moço, chorava e dizia para fugirmos porque eles iam matar-nos a todos, mas o pai e eu decidimos ir ver o que se passava. Ouvimos os gritos e começámos a remar na direcção deles”.

A recolha dos sobreviventes foi lenta. “Encontrámos primeiro dois que nadavam na nossa direcção. Depois recolhemos o que parecia ser o comandante. Tinha sapatos de fivela e começou a fazer-nos sinais para irmos buscar os outros”.

Devido aos ferimentos Rex McCoy foi um dos mais difíceis de recolher: “Traziam roupa grossa e, como estavam encharcados, ficavam muito pesados. Era difícil metê-los no barco, mas o McCoy (o único nome que recorda) – foi o mais complicado. Agarrei-o de um lado e o meu compadre de outro. Ele tinha mesmo muita força. Enquanto o puxávamos ele agarrou-se às minhas calças e rasgou-mas todas. Se me apanha a carne levava-a toda”, diz a rir enquanto aponta para a zona da virilha.

Em pior estado estava William Stultz. Foi o último a ser recolhido e era também o que mais cuidados precisava. “Estava a ser arrastado pela corrente em cima de umas coisas. Durante toda a viagem não se queixou uma única vez. Nunca disse uma palavra. Estava branco. Uma das pernas tinha perdido a carne toda abaixo do joelho. Devia ter cá umas dores, mas não mostrava nada”, salienta o pescador.

“O capitão (forma como Jaime Nunes trata o Tenente Trum) falava, mas não entendíamos nada. Depois percebi que queria saber se isto era Portugal ou Espanha. Disse-lhe, apontando para terra, que era Portugal. Repeti duas ou três vezes e ele parece ter ficado muito contente, Abraçou-nos”, explica Jaime Nunes.

Cinco tripulantes seguiram com o avião para o fundo do mar.

 

Tratados como ladrões

Na cidade de Faro, as movimentações do aparelho também tinham sido detectadas. Cerca das 22.20 horas foi enviado um grupo de bombeiros para o cais aguardaram uma lancha da marinha enviada para fazer buscas. Jaime Nunes recorda, “muito ao longe, o motor da canhoneira da marinha” mas, pelas duas da manhã os bombeiros desmobilizaram sem que tivessem sido encontrados sinais dos aviadores.

Jaime Nunes encontrava-se então perto de uma pequena barra – a Barrinha - esperando uma maré favorável para entrar na Ria Formosa e chegar a terra. O barco tinha apenas cinco metros e a bordo estavam nove pessoas. Mal se conseguiam mexer. Durante a espera a vela serviu de manta aos náufragos que envergavam também todas as roupas secas disponíveis a bordo.

fotografia do navio Alpha
fotografia do navio Alpha

Fichas dos bombeiros de Faro com registo da queda do avião.
(Arquivo Municipal de Faro)

Os americanos esgotaram roupa, mantas e também todas as provisões. O tabaco de enrolar e o café desapareceram. A pequenez da embarcação obrigava a cuidados redobrados quando alguém se mexia. “O mais ferido e o McCoy estavam estendidos junto ao mastro. O resto do pessoal foi distribuído pelo barco. O capitão estava a meu lado. Mal tínhamos espaço para remar quando entrámos na barra e nos dirigimos ao cais”, explica Jaime Nunes.

Chegaram pelas três da manhã e voltaram a chamar os bombeiros para transportar os homens ao hospital. “Eram uns moços. Só conseguiram levar os dois mais feridos. Os outros foram agarrados a nós até ao hospital onde não havia nem luz nem médicos. Foi-se ligar o gerador de propósito para dar assistência aos americanos. Os médicos, foram chamá-los a casa”, relembrava. A falta de luz devia-se ao facto do gerador da cidade ser desligado à noite devido ao racionamento.

“O barco acostou a muro com escadas de cimento e fui agarrado por duas pessoas que me levaram em ombros até ao hospital. Iam depressa, a cada meia dúzia de passos, batia com os pés no chão. Tinha perdido os sapatos e estava descalço. Aquilo doía-me bastante”, recorda, por sua vez, Lyle van Hook.

No hospital foram assistidos por três médicos. “O capitão estava melhor, mas os outros estavam cheios de sangue e de vidros”, explica Jaime Nunes que saiu do hospital empurrado pelos médicos ficando sem saber o verdadeiro estado dos homens que salvara: “O capitão queria que ficássemos, mas os médicos disseram que tínhamos de sair”.

Devido à gravidade dos ferimentos Stultz e McCoy foram transferidos para Lisboa no dia seguinte.

Lyle Van Hook, Richard Trum, Julian Pierce e John Eden ficaram a recuperar de ferimentos mais ligeiros. “No primeiro dia tivemos dezenas de visitantes. A maior parte eram pessoas simpáticas, mas outros faziam perguntas sobre nomes, moradas, a esquadrilha e o avião. O oficial naval da Legação Americana em Lisboa pôs fim ao movimento. Havia preocupações com questões de segurança que não podiam ser esquecidas”, salienta o aviador americano.

Para Jaime Nunes começava um pequeno calvário. Primeiro foi impedido de realizar visitas aos americanos e, depois, foi convencido pelo adido naval americano a mudar a localização do acidente para lá das águas territoriais portuguesas. Deste modo os aviadores eram considerados marinheiros em apuros e seriam repatriados mal recuperassem, em vez de ficarem internados. Obviamente a nova história trouxe-lhe problemas com as autoridades portuguesas.

A falta de autorização para visitas e o tratamento mais rude por parte das autoridades, chegou a causar um pequeno levantamento popular na cidade. A revolta dos pescadores acentuou-se porque também não estavam autorizados a visitar os aviadores.

No hospital os americanos receberam roupa civil, comida, vinho e nunca esqueceram como foram cuidados. “Quem tratava de nós era a irmã Noraldina, uma freira católica brasileira. Era como um anjo enviado do céu. Ensinou-nos palavras de português e sabia o que cada um de nós gostava. Estava sempre connosco e não sei como descansava porque, mesmo quando acordávamos a meio da noite, ela estava presente”, relembrava Lyle Van Hook.

Só após alguns dias foi possível aos pescadores visitarem os homens que tinham salvo. “Entregaram-nos umas fotos deles dentro do barco e tentámos que ficassem à vontade. Pouco falámos, mas julgo que conseguimos dar a entender que estávamos bastante satisfeitos por tê-los ali”, refere Van Hook. Jaime Nunes recorda o momento com alegria: “A fotografia tinha sido tirada para um jornal, mas a notícia nunca saiu devido à censura. Quando chegámos o capitão abraçou-me a chorar. Estavam muito contentes por lá estarmos. A mulher do cônsul Inglês em Vila Real de Santo António também estava muito contente por termos salvo os homens. Deu-me mais beijos que a minha mãe”.

A visita durou pouco tempo. “Havia uma mesa com muita comida. Estava muita gente importante. Gente com muitos galões nos ombros. Não nos sentíamos à vontade. Acabámos por ir embora. Foi então que o capitão nos deu uns quantos maços de tabaco e uma garrafa de vinho do Porto. Foi a nossa recompensa por os termos salvo”.

A 6 de Dezembro de 1944 os quatro americanos foram transferidos para Lisboa e dali para a sua base no Norte de África.

Para trás ficava Jaime Nunes a pensar num casaco que nunca mais vira, depois de embrulhar um dos aviadores nele, e à espera de uma recompensa que chegaria... cinquenta anos depois.

 

Justiça tardia

Em 1992 tomei conhecimento desta história quando procurava nos arquivos dos bombeiros de Faro confirmação de histórias sobre aviões que teriam aterrado ou caído na região. O ti’ Jaime foi-me apresentado como protagonista de um dos casos.

Aproveitando o surgimento da internet parti à procura dos seis aviadores americanos. Depois de muitos contactos, cartas e muita navegação recebi, na madrugada de 15 de Dezembro de 1998, um e-mail de Lyle Van Hook que, do outro lado do mundo, afirmava estar bem e de saúde.

Zangado porque o Adido Naval americano lhe tinha assegurado que os pescadores seriam recompensados, Van Hook enviou uma carta ao embaixador americano em Lisboa onde contava o que tinha acontecido, e terminava chamando a atenção para o facto de ser necessário os Estados Unidos “corrigirem um erro cometido sobre os homens” que os tinham salvo. 

fotografia do navio Alpha

Lyle Van Hook em 2001

Jaime Nunes com Tenente-coronel Kelly do exército dos EUA
(Imagem / Picture: Luis Forra )

A 8 de Junho de 1999, numa pequena cerimónia na Universidade do Algarve, promovida pelas autoridades americanas foi possível a Jaime Nunes - acompanhado pela família e amigos - rever um dos homens que havia salvo. Por videoconferência ligaram-se dois continentes e contou-se - em português e inglês  - o que tinha acontecido.

No final o Ti’ Jaime recebeu uma placa a relembrar o acontecimento e Van Hook, em lágrimas, leu uma mensagem onde salientava o feito do pescador: “Não tenho a capacidade para falar a sua língua e nem tenho a certeza de como se pronuncia o seu nome. Mas para mim, e para os outros, cujas vidas salvou naquela noite, o seu nome é sinónimo de herói”.

 

Mais surpresas…

Em Setembro de 2001 recebi uma carta de Aram Y. Parunak, de 91 anos. Comandante executivo da esquadrilha VB-112, em 1943 acompanhou William Stultz que, depois de enviado para Lisboa, foi transferido para um hospital inglês em Gibraltar.

Um amigo tinha-lhe entregue uma mensagem que eu colocara na Internet na fase inicial das  minhas investigações. Desconhecia, por isso, a evolução do caso.

Sobre Stultz contou que depois de sair Faro para Gibraltar tinha piorado e desenvolvido uma infecção complicada. Os americanos queriam que ele lhes fosse entregue, mas os médicos britânicos recusavam. O impasse durou cerca de um mês.

Parunak deslocou-se pessoalmente a Gibraltar para tentar transferi-lo, sem resultados. “Ninguém assumia a responsabilidade de lhe dar alta” escreveu. “Ao fim da tarde concluímos que já não havia ninguém com quem pudéssemos falar. Voltámos ao local onde estava Stultz e pedimos para falar com o graduado de serviço. Apareceu um oficial miliciano a dizer que era o mais graduado. Respondi-lhe que o mais graduado era eu, e ordenei-lhe que trouxesse Stultz. Assinei a ordem e regressei ao Norte de África”. Stultz seguiu para os EUA onde o pé e parte da perna foram amputados.

Dei-lhe conta da evolução do caso e enviei um artigo que publicara num jornal contanto a história até à homenagem e onde referia ao facto de Jaime Nunes ter perdido o casaco no incidente. Parunak agradeceu e fez-me um pedido: “Poucos meses depois do acidente assumi o comando da esquadrilha. Não posso fazer muita coisa por Jaime Nunes, mas sinto-me responsável pelas acções dos meus homens. Entendo por isso que devo oferecer a Jaime Nunes um novo casaco como forma de o compensar”.

No Natal de 2001, numa loja de Faro, entreguei-lhe um casaco novo em nome de Parunak. Na mensagem que enviou podia ler-se: “Nesta época natalícia, recordamos como o filho de Deus veio ao mundo para nos salvar dos nossos pecados, dando a sua vida no nosso lugar. O seu acto valoroso segue esse exemplo, quando arriscou a sua própria vida pela salvação de outros”.

Hélice submersa do bombardeiro.
(Fotografia: Hidroespaço)

 

Memorial em Faro - ainda em construção - que recorda o momento em que os pescadores salvam os tripulantes do bombardeiro.

fotografia do navio Alpha

Meses depois recebi o telefonema de José Vieira, da Hisdroespaço, uma escola de mergulho em Faro. Tinha encontrado os destroços de um avião ao largo da cidade, a cerca de 20 metros de profundidade. A historia do avião tinha-lhe sido contada por pescadores e há muito que o procurava. Ficou surpreendido quando numa troca de e-mails com alguém os Estados Unidos lhe deram o meu contacto. Apesar de vivermos na mesma cidade não nos conhecíamos.

Nos anos seguintes o “bombardeiro de Faro” ou o “B-24 de Faro” - conforme as versões - transformou-se num local procurado por mergulhadores de todo o país e não só.

Em 2008 lancei o “Aterrem em Portugal!”, o livro que contava esta e outras histórias sobre aviões e aviadores de países beligerantes que durante a II Guerra Mundial tinham aterrado ou despenhado em Portugal.

No ano seguinte fui contactado por Michael Pease, um britânico, reformado, que vive em Lagoa, no Algarve. Tinha lido o relato do salvamento protagonizado pelos pescadores e achava que os pescadores deveriam ser homenageados de alguma forma. Procurou apoios, fez contactos, reuniu dinheiro e a 7 de setembro de 2022 o seu projecto se concretizou-se.

O acto de Jaime Nunes, José e Manuel Mascarenhas que na noite de 30 de Novembro de 1943 salvaram Lyle Van Hook, Richard Trum, Rex McCoy, William Stultz, Julian Pierce e John Eden passará a ser recordado publicamente num memorial em aço…

Carlos Guerreiro




 

Fontes/ Sources:

  • Arquivos: National Archives UK, Kew (GB); Arquivo Histórico da Marinha (PT); Arquivo Histórico do MNE (PT); 
  • Sites: uboat.net; 
  • Livros: Shipping Company Losses of the second World War, Ian M. Malcolm; Lista dos Navios da Marinha Portuguesa, datas 1939 a 1945;